5. INTERNACIONAL 3.10.12

1. ILHADOS E MAL PAGOS
2. GUERRA DE ESGUICHOS

1. ILHADOS E MAL PAGOS
Os argentinos so submetidos pelo governo ao isolamento econmico e o pas  transformado por Cristina Kirchner em um laboratrio de maldades heterodoxas.
TATIANA GIANINI, DE BUENOS AIRES

     A Carta ao Leitor desta edia lembra os famosos versos do poeta ingls John Donne afirmando que nenhum homem  uma ilha. H muitos anos, quando Cuba era um mistrio e no a misria material e moral que se conhece hoje, os comunistas brincavam com os versos do ingls dizendo que s Fidel Castro  uma ilha. Pois bem, com a presidente Cristina Kirchner a Argentina est se transformando numa ilha  um ponto isolado da comunidade financeira internacional  governada por autoridades cada vez mais repressoras. Como consequncia, o pas est voltando atrs no processo de recuperao econmica empreendido na dcada passada e cada vez mais se v isolado do resto do mundo. A estratgia da presidente consiste em bloquear as liberdades individuais, como o acesso  livre informao, a bens de consumo e ao capital, sob a justificativa de salvaguardar a nao. Na prtica, o governo escolheu uma via econmica de curto prazo, duvidosa e cheia de obstculos, e agora os cidados argentinos sofrem com os efeitos. As restries impostas pelo governo vo desde a compra de dlares e o uso de cartes de crdito at a importao de qualquer tipo de produto, suprfluo ou no, passando pelos investimentos privados nos setores de comunicao e de petrleo. Viajar para o exterior exige passar por um calvrio burocrtico. Livros e remdios esto escassos e caros. Os cidados so bombardeados por propaganda oficial ameaadora e esto vendo milhares de vagas de trabalho ser fechadas pela fuga de investidores estrangeiros e pela impossibilidade de importar insumos bsicos para a indstria.
     Na ilha de Cristina, os salrios se deterioram sob a inflao de 25%, mas a simples meno desse fato rende multas e processos judiciais contra economistas e jornalistas. Algumas redes de supermercados, como o Carrefour, tiveram de fazer um acordo com o governo para pressionar para baixo o preo de produtos da cesta bsica argentina, como azeite, erva-mate e acar. Como os fabricantes no conseguem repassar para o consumidor o aumento do custo de produo desses itens, o desabastecimento  frequente. Para evitarem gndolas vazias, os supermercados precisam limitar a compra desses produtos a duas unidades por pessoa. Na ilha de Cristina, at o mate, a bebida nacional,  racionada.
     Uma das poucas coisas que os argentinos ainda podem fazer em sua ilha  o cacerolazo, a bateo de panelas nas ruas.  um ritual melanclico, encenado todos os dias s 8 horas da noite. No comeo, parece intil. Na Argentina, porm, quando os panelaos se tornam rotineiros,  sinal de que alguma coisa vai acontecer. Antes eram golpes militares. Agora no existe essa possibilidade. O governo sofre com a queda de popularidade. Em dez meses, a aprovao do governo caiu de 65% para 35%. Perdida, Cristina ataca o mensageiro. Na semana passada, o Grupo Clarn recebeu uma advertncia pblica direta. A presidente disse que a empresa de comunicao tem at o dia 7 de dezembro para se desfazer da maior parte dos seus canais de TV e emissoras de rdio. O objetivo do governo seria fazer valer a lei de mdia aprovada em 2009, que probe empresas de comunicao de manter mais de uma emissora de TV na mesma praa, mas todos sabem que o grupo est sendo punido por divulgar com muita nfase os protestos contra a Casa Rosada, em especial o do dia 13 de setembro passado, que reuniu centenas de milhares de pessoas em todo o pas. O real interesse de Cristina, portanto,  aumentar o controle da informao por parte do governo, que j tem o controle autoritrio de 80% dos canais de rdio e televiso do pas. Na ilha de Cristina, os cidados so nufragos cercados por um mar de notcias chapas-brancas.
     O isolamento da Argentina comeou em outubro do ano passado, dias depois da reeleio de Cristina. Com a recm-confirmada legitimidade das urnas, a presidente poderia ter corrigido o rumo do pas reorganizando as contas pblicas, reduzindo subsdios, atraindo investidores externos e desvalorizando a moeda nacional para conter a inflao crescente. Em vez disso, optou por aprofundar o populismo barato praticado antes das eleies por meio de subsdios amplos ao transporte e  eletricidade, que esvaziaram os cofres pblicos enchidos durante a gesto de seu marido, Nstor, morto em 2010. Para, conter a fuga de capitais que resultou da deteriorao do ambiente de negcios no pas, Cristina passou a fazer uso de medidas paliativas, como o controle de cmbio. O plano, que consistia em restringir a compra de dlares e controlar as importaes, uma fonte de evaso da moeda, comeou tmido. Aos poucos, a poltica de nem um prego sequer vindo de fora se radicalizou. Hoje, um indivduo s pode comprar dlares para viagens internacionais, ainda assim mediante a apresentao da passagem area dois dias antes da partida. O governo anunciou que, a partir deste ms, vai taxar em 15% o uso de carto de crdito no exterior, praticamente a nica forma de pagar as compras com o cmbio oficial. Os argentinos tambm no podem comprar moeda estrangeira para guardar em casa ou para adquirir imveis, como sempre fizeram. Com isso, os negcios de compra e venda de imveis caram at 70%. Nossos telefones no tocam, apesar dos anncios, diz o empresrio Armando Pepe, dono de uma das maiores imobilirias do pas. Nas tradicionais livrarias portenhas, diversos ttulos esto esgotados, pois as edies costumam ser impressas no exterior. At o currculo escolar do meu filho precisou ser mudado por causa da restrio aos livros importados. Nosso governo quer nos perturbar de todas as formas, diz a designer de interiores Solange Agterberg, de 31 anos. Na ilha de Cristina, os cidados s leem o que ela quer.
     O governo pretende enfiar produtos argentinos goela abaixo dos consumidores a qualquer custo, mas a populao insiste no direito de escolher itens de qualidade. Como s encontram liquidificadores, secadores de cabelo e televisores nacionais nas lojas, muitos portenhos cruzam o Rio da Prata de balsa para comprar de tudo, at itens banais como ferros de passar roupa, no Uruguai. Os artigos de luxo tambm sumiram das prateleiras. Por no conseguirem repor seus estoques, as grifes Escada, Armani e Yves Saint Laurent fecharam suas lojas no pas. A unidade da Louis Vuitton encerrou as atividades na semana passada, e a Cartier vai abandonar Buenos Aires no fim de outubro. A Avenida Alvear, o equivalente portenho da Rua Oscar Freire, em So Paulo, est com ares de fim de feira. Nossa liberdade de compra foi desastrosamente violada, diz o empresrio Ricardo Morales, de 67 anos, enquanto observa boquiaberto a vitrine vazia da Louis Vuitton, ao lado da esposa, Alice. Ao estrangular at o setor de luxo, que no tem concorrente nacional, o governo deixa claro que as restries s importaes visam unicamente a evitar a fuga de dlares. Trata-se de uma realidade que as empresas brasileiras com negcio no pas vizinho conhecem bem. As araras da nossa loja ainda exibem a coleo de inverno. Deveramos j ter roupas de primavera, mas no conseguimos importar at agora, conta a argentina Ana Anavi, gerente de expanso internacional da Osklen, uma marca brasileira de roupas. O plano para abrir uma segunda loja no bairro de Palermo foi suspenso. Na ilha de Cristina, os investidores externos so tratados como piratas, no como empregadores.
     Os investidores tiraram do pas 90 bilhes de dlares de 2006 at agora. A Colmbia ultrapassou a Argentina em atrao de investimentos e terminar o ano como o segundo maior PIB da Amrica do Sul, atrs do Brasil. Na segunda gesto de Cristina, o estado interveio mais fortemente na economia. Isso  ruim. O governo pode orientar, mas no d resultados quando se pe a produzir, disse a VEJA Roberto Lavagna, ex-ministro da Economia na gesto de Nstor Kirchner e o ltimo a de fato exercer o cargo. Os atuais ministros apenas obedecem a Cristina, que depende cada vez mais de fatores exgenos  o principal  a manuteno dos altos preos da soja e de outros produtos agrcolas de exportao  para financiar as contas da ilha. Diz Lavagna: A Argentina tem inegvel potencial, mas precisa de polticas pblicas que transformem isso em realidade. Soa como um epitfio da ilha de Cristina.


2. GUERRA DE ESGUICHOS
Japo e Taiwan, duas democracias, enfrentaram-se com canhes dagua em ilhas disputadas tambm pela China, uma ditadura. Por enquanto, sem vtimas.

     As monarquias, mostra sobejamente a histria, tendem a resolver suas diferenas por meio de guerras. As ditaduras tambm. Monarquias fizeram guerras contra ditaduras, e estas contra democracias. O que nunca se viu foi democracias fazerem guerras entre si. Essa  uma lei histrica que, infelizmente, pode ser desmentida no futuro  mas, por enquanto, esse pacto de no agresso  uma qualidade pouco lembrada da democracia, o regime que, no sendo perfeito,  melhor do que todos os outros. O Japo, uma monarquia constitucional, e Taiwan, uma repblica, deram, na semana passada, uma demonstrao da tendncia pacifista das democracias. Barcos pesqueiros e da Guarda Costeira dos dois pases enfrentaram-se em uma batalha naval usando como arma apenas canhes dgua. Que extraordinrio avano seria se em vez de se meterem em corridas por arsenais atmicos as naes decidissem que, de agora em diante, fariam umas s outras apenas guerras de esguichos.
     A disputa entre os navios japoneses e taiwaneses se deu ao largo das ilhas Senkaku, situadas a 330 quilmetros da China e equidistantes 170 quilmetros do Japo e de Taiwan. As Senkaku so ilhotas de apenas 7 quilmetros quadrados (para se ter uma ideia, a cidade de So Paulo tem 1523 quilmetros quadrados) reivindicadas pelos trs pases. O Japo controlou o arquiplago de 1895 at 1951, aps a derrota na II Guerra Mundial para os Estados Unidos, que administraram as ilhas at 1972. Naquele ano elas foram devolvidas ao Japo. A China nunca aceitou a soberania japonesa sobre as ilhas, contrariedade que se aprofundou com a divulgao de um relatrio da ONU dando conta da possibilidade de o subsolo das Senkaku ser rico em petrleo e gs.
     H trs semanas o governo japons comprou trs das cinco ilhas de um proprietrio privado (as outras duas j eram do estado). A ideia era evitar que o prefeito de Tquio, poltico nacionalista que no perde a chance de espezinhar a China, as comprasse. No adiantou. A China reagiu. As vsperas de trocar a cpula de governo, a China viu no episdio a chance de reavivar sentimentos nacionalistas, diz Sheila Smith, do Conselho de Relaes Exteriores em Washington. Os chineses fizeram manifestaes de rua contra o Japo, violentas a ponto de as montadoras de automveis japonesas Toyota, Nissan e Honda terem de suspender a produo de suas fbricas na China  um prejuzo de 250 milhes de dlares. Pequim enviou barcos s Senkaku. Ditaduras no costumam usar gua como munio.
NATHALIA WATKINS


